PIB forte e crise hídrica reduzem espaço para Selic abaixo de 6%

A forte surpresa positiva da atividade econômica e o ambiente de agravamento da crise hídrica fizeram com que cenários que apontavam para uma taxa de juros inferior a 6% no fim do ano perdessem força. Logo após a divulgação do PIB do primeiro trimestre, analistas elevaram suas projeções para a atividade e já passaram a enxergar chances maiores de uma Selic no nível neutro, aquele que não estimula nem contrai a economia. 

O Bank of America foi uma das casas que revisaram suas estimativas para a Selic, de 5% para 6% ao ano em 2021, o que leva em consideração o crescimento mais forte e a inflação projetada pelo banco – de 5,9% em 2021 – devido à alta das commodities, à depreciação do real e aos preços de energia elétrica. De acordo com o chefe de economia e estratégia do BofA no Brasil, David Beker, esses fatores devem levar o BC “a antecipar as altas [de juros] para este ano e evitar uma inflação mais alta e desancoragem das expectativas de inflação no médio prazo”. 

A Quantitas, que já adotava em seu cenário uma Selic de 6,5% no fim deste ano, manteve sua projeção inalterada, mas passou a ver o fim do atual ciclo com a taxa em 7,5% no início de 2022. 

“Se eu falar que não revisamos nosso cenário de Selic por causa do PIB de hoje, é verdade, mas é mentira”, brinca o economista-chefe da gestora, Ivo Chermont. “O número do PIB nos deu mais conforto para fazer um movimento de mudança de cenário de Selic que queríamos ter feito antes, mas é mais motivada pelo cenário de inflação”, diz. A Quantitas elevou a projeção para o PIB deste ano de 4,8% para 5,7%. 

Diante de um cenário de crescimento mais forte, a gestora espera uma inflação mais pressionada também no ano que vem, ao estimar o IPCA de 2022 em 4,2%, acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central. A trajetória da Selic, no quadro esperado pela Quantitas, terá duas elevações seguidas de 0,75 ponto percentual e depois cinco altas consecutivas de 0,50 ponto, o que faria o ciclo terminar somente em 2022. 

Com uma expectativa de que a inflação terminará o próximo ano em 4,5%, um ponto percentual acima do centro da meta, os economistas do Credit Suisse também já viam chance de o ciclo atual de normalização dos juros terminar com a taxa básica acima de 6,5%. Em relatório divulgado na segunda-feira, antes da surpresa com o PIB, os economistas Solange Srour e Lucas Vilela apontaram que “aumentou a possibilidade de

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um cenário em que o BC tenha que elevar os juros para um nível maior do que a taxa neutra (6,5%) neste ano, como está implícito em nossas projeções e nas taxas de inflação implícita”. 

Nesse ambiente, embora seu cenário contemple uma normalização parcial da política monetária neste ano, que seria finalizada no início de 2022, o economista-chefe da Trafalgar, Guilherme Loureiro, reconhece que as chances de um ciclo ininterrupto de elevação dos juros ganharam força. “Vemos a Selic indo a 5% neste ano, uma pausa a partir de agosto e uma retomada no começo do ano que vem, indo para 7%. No entanto, quanto mais forte a atividade, mais rápido o hiato do produto irá fechar e maior o risco de se fazer um ciclo completo de uma vez”, afirma. 

Nos cálculos da Trafalgar, o hiato do produto (diferença entre o PIB observado e o potencial) deve se fechar um pouco antes do esperado, no segundo trimestre de 2022, o que justificaria, ainda, uma visão de pausa no ciclo de elevação da Selic. Loureiro nota, contudo, que o BC deve observar com atenção as projeções de inflação de 2022, já que o horizonte relevante da política monetária está totalmente no ano que vem. 

“A atividade mais forte conversa com uma inflação de serviços mais pressionada e pode contaminar as expectativas de inflação de 2022”, diz. Para Loureiro, o BC irá agir caso note que as expectativas estão começando a descolar do nível de 3,5%. A Trafalgar trabalha com inflação entre 3,6% e 3,7% no próximo ano. 

Assim como Loureiro, o economista sênior do banco ABC Brasil, Daniel Xavier, também acredita que o quadro de PIB acima do consenso do mercado no primeiro trimestre ainda não mudou. “Entendo que exista, sim, um viés na direção de que o BC terá de retirar os estímulos mais rapidamente após o PIB, mas os diretores têm dito e reiterado que esperam uma dinâmica mais positiva para a atividade, inclusive tendo mostrado já há algum tempo uma projeção para PIB acima da do mercado”, nota. 

Assim, para Xavier, não parece haver um grande sinal de mudança vindo do cenário de atividade, “tanto que as menções ao ajuste parcial continuaram sendo repetidas, como foi na ata, e, mais recentemente, os indicadores fiscais têm sido melhores do que o esperado”. Atualmente, o ABC projeta que a Selic fechará o ano em 5%. 

O economista Rafael Ihara, da Mauá Capital, também avalia que a Selic não terminará este ano já no nível neutro. Para ele, embora o PIB tenha voltado ao patamar pré-covid, o emprego ainda roda abaixo dos níveis anteriores à pandemia. “Estamos vendo uma recuperação da atividade sem resposta da mesma magnitude no emprego”, diz. 

Ihara também aponta para a redução do risco fiscal diante do PIB mais forte do que o esperado. “Estamos vendo resultados surpreendentes. Isso deveria ajudar a reduzir o risco fiscal e reduzir a pressão por uma extensão do auxílio emergencial”, diz. Na visão do economista, o número mais forte do PIB deveria, portanto, ajudar o plano de ajuste parcial. A Mauá projeta a Selic em 5,5% no fim do ano.

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